Mulheres ainda enfrentam barreiras na área de Ciência e Tecnologia

14, junho de 2018

Fato tem forte ligação com os estereótipos de gênero, mas futuro para elas é promissor

 

Ainda na infância, é comum sermos expostos à ideia socialmente construída de que existem coisas exclusivamente para meninos e outras só para meninas. Isso impacta desde as cores que compõem nosso guarda-roupa, passa pelos brinquedos com os quais somos presenteados e chega à normatização de atos só aceitos depois que fatores como gênero, orientação sexual e idade são levados em conta.

No meio acadêmico, embora grandes esforços já tenham invalidado várias convenções que sustentam as diferenças entre os gêneros, muito ainda precisa ser feito para que os cursos universitários deem às mulheres as mesmas experiências e oportunidades oferecidas ao sexo masculino.

Mulheres ocupam quase 60% das vagas em cursos superiores brasileiros, de acordo com o Censo da Educação Superior de 2016 – o mais recente sobre o assunto -, mas elas encontram barreiras para adentrar em certos campos profissionais.

Na área de Ciência e Tecnologia, detentora da maioria das graduações frequentemente consideradas masculinas, por exemplo, os índices são inversos em relação à soma geral. Do total de alunos, mulheres são 41% e homens, 59%, segundo publicação do G1. No mercado de trabalho, apenas 17% dos programadores em atividade são do sexo feminino, segundo reportagem do site Época Negócios.

 

 

Análise sociológica oferece respostas 

A professora de Sociologia dos cursos de Comunicação Social – Publicidade e Jornalismo –  e Direito da Universidade Vila Velha, Maria Angela Rosa Soares, contextualiza a presença da mulher na sociedade ao longo da história e aponta alguns motivos que levam à discriminação relacionada à presença delas em certos campos profissionais:  

“Historicamente, a mulher é percebida como ‘um macho incompleto’, logo, deve ser subordinada ao homem para suprir sua ‘deficiência’. É considerada incapaz de decidir seu próprio destino por ser ‘fraca’ e ‘emocional’. Deve servir ao marido e educar os filhos. 

Seu lugar é o lar. Deve ser controlada, principalmente sua sexualidade, porque, como filha de Eva, é traiçoeira, ardilosa, perigosa. O homem deve mantê-la sob controle para ‘não perder o paraíso’, assim como aconteceu com Adão.

A mulher é socializada, então, para assimilar o perfil de Maria: doce, obediente, calada, sagrada na maternidade. Essa é a ‘natureza’ feminina. Criam-se, assim, estereótipos que a colocam em espaços sociais que, teoricamente, não desvirtuam sua ‘herança biológica’.

No mundo acadêmico e do trabalho, a mulher é mais aceita nas áreas de Humanas, como Pedagogia (a ‘tia’), Psicologia, Serviço Social, Enfermagem, Biblioteconomia, etc. Quando se insere nas Engenharias ou na Medicina, tem dificuldades de ocupar cargos que representam o objetivo fim dessas áreas. Na Medicina, por exemplo, raramente se encontra uma cirurgiã, mas na pediatria e na dermatologia, a maioria são mulheres. 

Nas Engenharias, são mais aceitas nas atividades internas: projetos, desenhos e afins. Raramente se vê uma ‘engenheira responsável’ pela construção de prédios, pontes, aviões, etc. Máquinas e equipamentos, movimentação de altos montantes de recursos, investimentos, são percebidos como competências masculinas.   

Há cerceamento, por vezes velado, das mulheres em cargos de maior prestígio e poder, pelos estigmas de serem seres mais emocionais do que racionais, por engravidarem e terem que cuidar dos filhos e, por isso, terem menos disponibilidade para se dedicarem à função.

As mulheres, mesmo com escolaridade igual ou superior aos homens, haja vista que estão na universidade em todas as áreas, têm remuneração inferior, mesmo em cargos de igual responsabilidade, recebendo em torno de 25% a menos.

E abordar a condição feminina requer alguns recortes, como racial e de classe, principalmente. A distância entre a condição do homem branco, classes A/B e a mulher negra ou parda se aprofunda de forma gigantesca em uma sociedade racista, preconceituosa, classista e excludente como a brasileira. Se a essas categorias for acrescentada a questão de orientação sexual, o abismo se amplia.

Na contemporaneidade, não há restrições formais para mulheres em praticamente nenhuma profissão. Elas estão maciçamente nas universidades, em patamar de igualdade com os homens em termos de acesso. No entanto, há carência de equidade social, no sentido de garantia dos direitos. 

A desigualdade de gênero existente na sociedade perpassa a cultura da academia, pois, embora as mulheres estejam amplamente inseridas em todos os cursos, os docentes universitários são em sua maioria homens. Reflete na academia a premissa que reserva às mulheres os espaços sociais menos valorizados e reconhecidos na sociedade, embora não sejam menos importantes”, conclui.

 

Maria Angela Rosa Soares, graduada em Ciências Sociais, Mestre em Educação, Doutoranda em História e professora de

Sociologia, Antropologia e Ciência Política na Universidade Vila Velha

 

A educação para eles e para elas

Entenda como o ensino acadêmico é afetado pela diferença de oportunidades entre homens e mulheres, segundo publicação do G1, baseada em estudo realizado pelo The Boston Consulting Group:

  • Homens têm 77% de chances de entrar na faculdade, mulheres têm 35%; 
  • As chances de eles concluírem uma graduação chega a 37%, as de elas concluírem é de 18%; 
  • Somente 8% das mulheres graduadas têm chances de ingressar em algum curso de Mestrado. A possibilidade é dobrada para os homens;
  • O Doutorado é acessível para 2% das mulheres e para 6% dos homens. 
O estudo do The Boston Consulting Group leva em consideração números do ensino superior da França, da Alemanha, da Inglaterra, dos Estados Unidos, do Japão, da Espanha e da China. 

 

Preconceito segue como principal obstáculo

Convencionou-se que atividades envolvendo liderança, pulso firme, estratégia, tecnologia e relacionamento com números se adequam melhor ao perfil masculino. Para as mulheres que decidem romper o padrão, a graduação, cujo nível de complexidade deveria ser o mesmo para todos, torna-se consideravelmente mais desgastante devido ao preconceito.

“Trabalhei com mulheres maravilhosas durante minha carreira em Tecnologia da Informação. Todas competentes e muito inteligentes. Por algum motivo (talvez eu saiba qual), as mulheres foram abandonando a área, e agora os homens dominam as salas de aula e o mercado de trabalho”, relata a coordenadora dos cursos de Ciência da Computação e Sistemas de Informação da Universidade Vila Velha, professora Susilea Abreu dos Santos.

Supõe-se que o afastamento da mulher de profissões de Ciência e Tecnologia esteja relacionado ao reforço dos estereótipos criados para cada gênero. O empoderamento feminino e a abertura de diversos grupos sociais para a discussão sobre como reparar as diferenças históricas apontadas surgem, então, como os principais catalizadores das mudanças que visam acabar, enfim, com estas disparidades que colocam as mulheres em posições inferiores.

“Nas empresas, muitos trabalhos realizados por mulheres só ganham destaque quando apresentados por homens. O preconceito sobre a capacidade de produção das mulheres é evidente dento de algumas organizações. Além disso, é comum que mulheres me questionem o motivo pelo qual estou nessa área, como se eu fosse uma “intrusa” no mercado de TI. Sinto que o preconceito também parte de algumas delas, que não percebem o quanto podem produzir e colaborar. Passou da hora de mudarmos esse cenário! Nós, mulheres, estamos voltando a recuperar nosso espaço na área de TI e, juntas, faremos com que a computação seja uma ferramenta essencial para a transformação do mundo em um lugar melhor e mais igualitário. Nos cursos que coordeno, na UVV, lutamos para que as mulheres tenham as mesmas oportunidades de aprendizado que os homens. O problema é que muitas desistem no meio do caminho e não chegam a se formar. Mas já sinto uma mudança. Temos alunas que dão um show de notas e de desempenho nos mercados capixaba e nacional”, finaliza Susilea Abreu.

 

Susilea Abreu dos Santos, graduada em Processamento de Dados, Mestre em Informática e coordenadora dos cursos de  Ciência da Computação e Sistemas de Informação da Universidade Vila Velha

Susilea Abreu dos Santos, graduada em Processamento de Dados, Mestre em Informática e coordenadora dos cursos de

Ciência da Computação e Sistemas de Informação da Universidade Vila Velha

 

Conexões que agregam

Em função do desenvolvimento tecnológico e do crescimento da rede que torna a conexão entre pessoas e aparelhos cada vez mais intensa, as profissões relacionadas ao campo de Ciência e Tecnologia vivem um momento de excelentes projeções para o futuro. A pluralidade, neste cenário, é essencial para o surgimento de ideias e projetos atrativos com verdadeira capacidade de atender as demandas emergentes.

Excluir a mulher, entre diversas outras falhas, é ignorar novas perspectivas e negligenciar potenciais que, numa política educacional e empresarial igualitária, certamente contribuem para uma evolução que rompe as barreiras do seu próprio campo de origem e influencia movimentos que vão além, inspirando e desencadeando transformações em que etnia, cor, gênero e sexualidade só têm a agregar.